Faltou o número 1 do mundo, caiu o maior vencedor de Grand Slams da história e o atual campeão voltou de uma lesão de quatro meses e meio ainda buscando o próprio ritmo. Não à toa, a imprensa internacional já apelidou o US Open 2026 masculino de o Grand Slam mais aberto da década — e, passada a primeira semana em Nova York, é difícil discordar. Sem Jannik Sinner e sem Novak Djokovic, a chave que costumava ter dono virou terra de ninguém. Vamos entender, peça por peça, como o quebra-cabeça ficou assim.
A ausência que reconfigurou tudo: Sinner de fora
Comecemos pela baixa mais pesada. Jannik Sinner, número 1 do ranking e uma das forças mais dominantes do circuito nos últimos anos, não entrou na chave: o italiano não se recuperou a tempo de um problema no joelho que o incomodava desde Wimbledon e decidiu não competir. A consequência prática foi imediata — com Sinner fora, Alexander Zverev herdou a condição de cabeça de chave número 1 e todo o eixo de favoritismo do torneio precisou ser redesenhado. Quando o jogador mais consistente da temporada nem aparece no sorteio, cada rodada passa a valer o dobro em oportunidade.
Djokovic passa mal, chora e cai na estreia — a zebra que abriu ainda mais a porta
Se a ausência de Sinner já bagunçou o cenário, o que aconteceu com Novak Djokovic terminou de escancarar a chave. Aos 39 anos e em busca do 25º título de Grand Slam, o sérvio — recordista absoluto e quatro vezes campeão em Nova York — passou mal em quadra, chegou a vomitar, chorou e foi eliminado logo na primeira rodada pelo argentino Mariano Navone, em uma maratona de 4h36 decidida em cinco sets. Foi a queda mais precoce de Djokovic em 20 participações no US Open. Com ele, ia embora um dos poucos nomes capazes de segurar a chave nas costas quando a pressão aperta — e o vácuo no topo ficou ainda maior.
Zverev, o número 1 improvável, e o susto contra Sonego
Herdeiro da ponta, Alexander Zverev tem o currículo recente para sustentar o favoritismo: campeão de Roland Garros e finalista de Wimbledon em 2026, o alemão chega como um dos homens a bater. O problema é que a fama de tropeçar nas horas decisivas continua colada nele — e a estreia não ajudou a espantar o fantasma. Zverev precisou de 4h53 e de uma virada de dois sets a um para escapar de Lorenzo Sonego, chegando a estar a dois pontos da eliminação. Avançou, sim, mas deixou no ar a dúvida de sempre: quando o jogo ficar realmente grande, o nervo vai segurar?
Alcaraz volta de lesão defendendo o título
Do outro lado da moeda está Carlos Alcaraz, o atual campeão. Segundo pré-classificado e vencedor da edição de 2025, o espanhol retornou às quadras no US Open depois de quase quatro meses e meio parado por uma lesão no punho direito, sem competir desde abril. A boa notícia para quem torce por ele é que, a cada rodada, o murciano parece reencontrar o jogo — a falta de ritmo inicial deu lugar a atuações cada vez mais convincentes. Se o punho aguentar e a confiança voltar ao ponto de 2025, Alcaraz é, talvez, o favorito mais natural de uma chave sem favorito absoluto. Mas “se” é justamente a palavra que define este US Open.
Então, quem ganha? Os nomes que enxergam a brecha
É aqui que a coisa fica divertida. Numa chave sem Sinner e sem Djokovic, uma penca de jogadores que normalmente esbarraria nos gigantes passa a acreditar de verdade. Taylor Fritz, finalista em 2024 e sempre perigoso no cimento norte-americano, sonha em decidir em casa. Ben Shelton tem o saque e a explosão para incendiar a Arthur Ashe. Daniil Medvedev, campeão do torneio em 2021, conhece como poucos o caminho até a taça. Alex de Minaur e Lorenzo Musetti completam o time de outsiders qualificados que, em um ano normal, torceriam para não cruzar com os número 1 e 2 — e que, neste 2026, olham para o próprio lado da chave e pensam: por que não eu? Previsão de campeão? Qualquer aposta fechada agora é chute com cara de coragem.
E o Brasil nessa história?
Aqui bate a saudade. Pela primeira vez desde 2018, o Brasil não tem representante na chave de simples do US Open: João Fonseca ficou fora por causa da lesão no abdômen — e agora concentra as energias na recuperação de olho na Copa Davis contra a Suíça, dias 18 e 19 de setembro, no Rio. Quem carrega a bandeira em Nova York é o juvenil Guto Miguel, cabeça de chave número 1 do US Open Junior 2026 e com o melhor ranking da carreira. Ou seja: no torneio grande a gente assiste de camarote, mas com um olho já no futuro verde e amarelo. E convenhamos — para o torcedor neutro apaixonado por tênis, um Grand Slam de final imprevisível é exatamente o tipo de festa que a gente não quer perder.
Chave aberta, favoritos com pontos de interrogação e um campeão convalescente reencontrando o nível: o US Open 2026 tem todos os ingredientes para entregar uma segunda semana eletrizante. Se você gosta de tênis com roteiro imprevisível, arrume a pipoca — este pode ser o Grand Slam mais democrático dos últimos anos.
