Existe um momento humilhante na vida de todo tenista amador: você entra em quadra se achando minimamente preparado, dá três corridinhas laterais, erra um forehand que parecia simples, busca uma bola curta com a dignidade de um móvel sendo arrastado e, de repente, percebe que o tênis não quer saber se você pagou a mensalidade da academia. O tênis cobra. E cobra em parcelas de falta de ar, perna pesada, braço mole, cabeça irritada e aquela vontade discreta de culpar a raquete, a bola, o vento, o piso, o sol, a umidade, o professor, a infância e, em casos extremos, a arbitragem que nem existe.
A primeira notícia desagradável é esta: jogar tênis não é, por si só, o melhor jeito de ganhar resistência para jogar tênis. Parece piada, mas não é. A partida é o palco onde você usa o que treinou; não necessariamente o laboratório ideal para construir o condicionamento que você gostaria de ter. A resistência, segundo a fonte que estamos usando, depende de adaptações fisiológicas específicas, desenvolvidas fora ou além do jogo, na preparação física. Ou seja: não adianta aparecer sábado, jogar uma hora, quase desmontar no segundo set e dizer “hoje eu treinei cardio”. Não, você apenas sobreviveu publicamente.
O tênis é cruel porque parece elegante na televisão. Federer deslizava como se estivesse escolhendo vinho. Djokovic corre cinco horas e ainda parece capaz de discutir filosofia balcânica no vestiário. Nadal passava a impressão de que cada ponto era uma briga de família. Mas o amador? O amador dá um split step atrasado, chega torto na bola, bate desequilibrado e depois fica olhando para o chão, como se a quadra tivesse se movido. A verdade é que o tênis exige prontidão, sprints curtos, mudanças bruscas de direção, golpes potentes e recuperação rápida entre rallys e sets. A final de Wimbledon de 2019 entre Djokovic e Federer durou 4h57, e o lendário Isner x Mahut, em 2010, chegou a 11h05 ao longo de três dias. O amador não vai jogar isso tudo, claro. O amador às vezes não sobrevive nem ao aquecimento com dignidade. Mas o princípio é o mesmo: quem não aguenta repetir esforços intensos vira figurante da própria partida.
Para cansar menos, o tenista precisa entender que “resistência” não é uma coisa só. Não é apenas “fazer esteira” e esperar que o backhand pare de morrer na rede. Existem três resistências principais: a aeróbia, ligada a esforços leves ou moderados e longos; a anaeróbia lática, ligada a esforços máximos de até dois minutos, com produção de lactato; e a anaeróbia alática, ligada a esforços máximos muito curtos, de até vinte segundos. Traduzindo para o idioma do sofrimento: você precisa aguentar o jogo inteiro, explodir nos pontos decisivos e repetir arrancadas sem parecer um modem discado tentando conectar.
A predominante no tênis é a resistência anaeróbia, porque o jogo é feito de explosões curtas: sai para a direita, freia, muda para a esquerda, corre para frente, recua, gira tronco, bate, recupera, repete. É quase uma coreografia feita por alguém que não gosta de você. Só que o sistema aeróbio continua sendo a base. Quanto mais longos forem os rallys e a partida, mais ele entra no jogo. O aeróbio é o motor de fundo, a usina silenciosa que permite ao corpo produzir energia, recuperar melhor e não transformar cada troca de bola em um pedido de desculpas aos pulmões.
Então sim, correr pode ajudar. Ciclismo pode ajudar. Natação pode ajudar. Ergômetros podem ajudar. Treinos contínuos e intervalados podem ajudar. A fonte explica que o treinamento aeróbio melhora a captação e distribuição de oxigênio, aumenta o volume de sangue, melhora a ação do coração e favorece adaptações nos músculos, como a criação de capilares que distribuem melhor o oxigênio. Em termos menos bonitos: você deixa de ser um carro velho subindo ladeira em segunda marcha. O motor fica mais resistente.
Mas calma, campeão do parque municipal: isso não significa correr dez quilômetros todo dia até odiar a própria existência. O tênis não é maratona com raquete. É preciso treinar de modo inteligente. Um bom treino aeróbio pode ser contínuo, moderado, ou intervalado, mais intenso. O objetivo é criar base para que você consiga se recuperar melhor entre pontos e manter qualidade técnica por mais tempo. Porque o problema do cansaço no tênis não é só ficar ofegante. O problema é que, quando você cansa, sua técnica vira arte contemporânea: ninguém entende, mas todo mundo respeita de longe.
Depois vem o treinamento anaeróbio, o verdadeiro retrato da quadra. Circuitos com sprints curtos, de menos de dez segundos, em máxima potência, são uma boa alternativa. Mas há um detalhe que o tenista ansioso odeia: é preciso descansar. A recomendação citada fala em pelo menos sessenta segundos de descanso para repor substratos energéticos, como a fosfocreatina, e conseguir repetir os estímulos com qualidade. Isso é importante porque treinar explosão cansado demais vira só uma sessão de tropeços com intenção atlética.
O circuito ideal pode incluir mudanças de direção, deslocamentos parecidos com os da quadra e até movimentos técnicos do tênis. Nada daquela preparação física genérica de quem acha que subir escada resolve voleio. O corpo precisa aprender a correr, frear, girar, bater e voltar. Tênis é recuperação constante. O ponto não termina quando você bate na bola. Termina quando você está pronto para a próxima. E é aí que muita gente perde: não no golpe, mas no intervalo entre uma vergonha e outra.
A musculação também entra, para a tristeza de quem achava que tênis era só “braço”. O treino de força ajuda na resistência anaeróbia lática, especialmente com séries entre quarenta segundos e um minuto até a falha concêntrica. Isso aumenta a tolerância à acidose muscular, aquela sensação de queimação que faz o atleta amador descobrir religiões novas no meio da série. Além disso, fortalece grupos essenciais: ombros, manguito rotador, braços, peitorais, dorsais, core, glúteos e estabilizadores do quadril.
Aqui entra uma referência útil de The Inner Game of Tennis, de W. Timothy Gallwey: o corpo joga melhor quando a mente para de atrapalhar. O cansaço não é apenas físico; ele também vira ruído mental. Quando você está mal condicionado, começa a negociar com a própria cabeça. “Essa bola não dava.” Dava. “Ele teve sorte.” Não teve. “A quadra está rápida.” Você está lento. A mente inventa desculpas para proteger o ego, esse técnico particular que fala muito e treina pouco.
George Carlin provavelmente olharia para o tenista amador e diria algo na linha do seu espírito ácido: o ser humano adora criar linguagem bonita para esconder verdades simples. “Fadiga neuromuscular”, “queda de performance”, “perda de eficiência técnica”. Às vezes é só: você está fora de forma. E tudo bem. O problema não é estar fora de forma. O problema é comprar uma raquete nova achando que ela vem com pulmão incluso.
Chuck Palahniuk, por outro lado, entenderia o lado grotesco da coisa: o tênis revela quem você é quando a pose acaba. No primeiro game, você é disciplina, elegância e projeto esportivo. No terceiro set, você é um organismo tentando não tossir a alma enquanto finge que está tudo sob controle. A quadra é honesta. Ela não se impressiona com camiseta de torneio, overgrip importado ou frase motivacional no grupo do WhatsApp.
Portanto, para ganhar resistência e cansar menos no tênis, a fórmula é menos glamourosa do que parece: construa base aeróbia, treine explosão anaeróbia, faça circuitos específicos, fortaleça o corpo, respeite descanso, alimente-se bem e procure orientação profissional. Não é sexy. Não viraliza. Não rende legenda inspiradora. Mas funciona.
No fim, resistência no tênis é isso: a capacidade de continuar jogando tênis quando seu corpo já começou a escrever uma carta de demissão. Quem treina direito chega melhor na bola, decide melhor o golpe, recupera melhor entre pontos e erra menos por desespero. Quem não treina continua fazendo o básico do amador moderno: perde o ponto, olha para a raquete e murmura que precisa trocar o encordoamento.
Troque, claro.
Mas talvez o problema esteja um pouco mais abaixo. Nos pulmões. Nas pernas. No core. No coração.
E, principalmente, na honestidade de admitir que cansar menos no tênis começa muito antes de entrar em quadra.

