Resumo
A tecnologia está transformando a preparação no tênis profissional. Hoje, jogadores e equipes usam dados de saque, padrões de rally, zonas da quadra, vídeos e até métricas físicas para montar estratégias antes das partidas. A tendência é que esse arsenal fique ainda mais sofisticado com IA, scouting automatizado e ferramentas em tempo real.
O tênis entrou na era do algoritmo — e isso pode mudar o jogo antes da bola subir
Se durante décadas a imagem clássica da preparação no tênis era a de um técnico sisudo vendo fita VHS, rabiscando setas num caderno e murmurando “ele abre demais o backhand cruzado”, agora a coisa ganhou cara de laboratório premium. Não chega a ser ficção científica nível Minority Report, mas também já não é só “ver vídeo e sentir o jogo”.
O tênis de 2026 está cada vez mais obcecado por dados. E, convenhamos, faz sentido. Em um esporte decidido por margens mínimas, um saque mal lido, uma devolução previsível ou um padrão de ponto repetido pode ser a diferença entre levantar um troféu e voltar para casa com cara de quem perdeu o Wi-Fi na final do campeonato.
A grande discussão do momento é simples: a tecnologia está mudando só a preparação ou já está mudando a própria lógica competitiva do tênis? A resposta mais honesta é: as duas coisas.
Como a tecnologia está mudando a preparação no tênis
A preparação de um jogador profissional já não depende apenas de feeling, observação visual e repertório do treinador. Hoje ela passa, cada vez mais, por painéis analíticos, mapas de saque, padrões de troca, qualidade de golpe e recortes em vídeo ponto a ponto. É o tênis entrando, sem pedir licença, na sua fase “planilha com esteroides” — sem o escândalo, só com mais gráficos.
Um dos exemplos citados é o de Jakub Mensik, que ainda nas categorias de base usava uma plataforma criada pelo próprio pai, profissional de TI, para monitorar estatísticas de saque, devolução, plus-one shots e zonas da quadra. O que parecia coisa de nerd aplicado virou, no fundo, uma prévia do que o circuito inteiro está abraçando agora.
Mensik resume bem o espírito da coisa: saber para onde o adversário costuma sacar, onde ele é mais vulnerável e como os pontos se desenham oferece uma vantagem concreta. E não estamos falando de detalhe irrelevante. Segundo ele, cerca de 70% dos rallies terminam entre zero e quatro golpes, o que deixa claro como saque e devolução continuam sendo o coração da guerra tática.
ATP Tennis IQ: a quadra virou dashboard
O exemplo mais visível dessa transformação é o ATP Tennis IQ, plataforma de análise de performance da ATP. Lançada originalmente em 2023 e reformulada após investimento do PIF, ela oferece aos atletas dados sobre padrões de saque, duração dos pontos, posicionamento, gráficos de quadra, análise em vídeo e métricas de qualidade de golpe. A ATP apresentou essa evolução durante o Miami Open de 2026.
A ambição é quase democrática, o que no esporte profissional sempre soa bonito no release e mais interessante quando realmente funciona: dar acesso a informação de qualidade para mais jogadores, não apenas para a elite cercada por grandes equipes e consultores caríssimos. Ross Hutchins, Chief Sporting Officer da ATP, destacou justamente isso ao falar da plataforma.
Entre os recursos em expansão estão análise ponto a ponto em vídeo, inclusão futura de torneios Challenger e duplas, além de métricas físicas obtidas via wearables, como distância percorrida, número de sprints e tempo ativo entre pontos. Há também pedidos específicos vindos de jogadores e treinadores, como o detalhamento de velocidade de saque por posicionamento. Em português claro: o tênis está cada vez mais interessado em dissecar tudo o que acontece antes, durante e depois do ponto.
O dado mais cobiçado? Localização do saque
Não é surpresa que a seção mais acessada da plataforma seja a de locais de saque. No tênis moderno, isso vale ouro. O saque é o único golpe em que o jogador tem tempo para pensar, escolher e executar com intenção plena. Saber a tendência do rival é como receber spoilers de uma série boa: talvez estrague a surpresa, mas aumenta bastante suas chances de sobreviver ao roteiro.
Nem todo jogador quer virar estatístico
Claro que há um limite. Nem todo atleta quer sentar diante de um dashboard como se fosse gerente de tráfego pago tentando salvar campanha em sexta-feira à noite.
A reportagem mostra que Aryna Sabalenka confia muito nas estatísticas e diz, com razão brutal, que “números não mentem”. Para ela, esse tipo de informação pesa principalmente nos momentos decisivos.
Já Coco Gauff prefere outra abordagem: usa um serviço próprio, mas deixa os coaches mergulharem nos detalhes. Ela mesma admite que informação demais pode complicar a cabeça. O que mais interessa para ela? Saber onde a adversária gosta de sacar. Ou seja, mesmo quem não quer afundar no mar de números acaba pescando os peixes mais valiosos.
Essa diferença de perfil é importante porque desmonta uma fantasia comum: a de que mais dado é sempre melhor. Não é. Em alguns casos, estatística demais pode paralisar, confundir e fazer o tenista entrar em quadra pensando como analista, não como competidor.
O equilíbrio entre instinto e informação
A ex-campeã olímpica Monica Puig resume isso muito bem ao dizer que existe uma linha fina entre usar bem a informação e ficar obcecado por ela. Se o jogador tende a pirar com os números, talvez a melhor solução seja delegar essa parte ao time técnico. O dado continua ajudando, mas sem sequestrar o instinto.
E aqui está a chave da discussão: a tecnologia pode sofisticar a preparação, mas o tênis segue sendo jogado por humanos, sob pressão, diante de imprevisibilidade, vento, nervosismo, dor e coragem. Ainda não inventaram algoritmo que bata forehand sob 5/6 no terceiro set.
Craig O’Shannessy, Sabalenka e a profissionalização do scouting
Outro nome importante citado é Craig O’Shannessy, um dos analistas mais conhecidos do esporte. Ele ajudou a popularizar softwares de marcação tática e trabalhou com Novak Djokovic entre 2017 e 2019, período em que o sérvio voltou ao topo e conquistou mais Grand Slams. Depois, colaborou com Matteo Berrettini e atualmente trabalha com Infosys e ATP.
Esse tipo de atuação mostra que a análise tática no tênis deixou de ser um acessório excêntrico para virar componente estruturante. Antes, parecia coisa de “gênio dos números”. Agora, está virando infraestrutura.
E a inteligência artificial? Ela já entrou na quadra?
Ainda não de forma total, mas já ronda o esporte como vilão charmoso de blockbuster. A reportagem cita que o futuro pode incluir scouting com auxílio de IA e até ferramentas de coaching em tempo real. Quando perguntada sobre o uso de inteligência artificial para estudar adversárias menos conhecidas, Sabalenka respondeu com humor: “por enquanto, confiamos nos números reais. Mas provavelmente no futuro”.
Traduzindo: a IA ainda não virou técnica principal, mas já está aquecendo no banco.
E isso abre questões fascinantes. O tênis vai ficar mais inteligente? Sem dúvida. Vai ficar mais previsível? Talvez. Vai premiar melhor quem souber interpretar dados sem perder espontaneidade? Com certeza.
O filme continua sendo essencial
Mesmo com toda essa modernização, o estudo de vídeo continua vital. O americano Ethan Quinn destacou como rever imagens de sua derrota para Carlos Alcaraz foi importante para entender melhor a partida e aprender com o que sentiu em quadra versus o que de fato aconteceu. Ele chamou esse processo, com razão, de uma espécie de “assistant coach”.
Isso é importante porque mostra que o futuro da preparação não é “dados versus vídeo” ou “planilha versus sensibilidade”. O futuro parece ser a combinação de tudo isso. O tênis não está abandonando os métodos clássicos; está turbinando-os.
O futuro do tênis será mais preciso — mas não menos humano
No fim das contas, esse é o ponto mais interessante de toda essa revolução. O tênis pode até estar entrando de vez na era do algoritmo, mas a essência do esporte continua humana. A análise ajuda a montar o plano. A IA pode sugerir padrões. Os números podem apontar o caminho. Mas, na hora da verdade, ainda é o braço, a cabeça e a coragem do jogador que precisam resolver o problema.
Ou seja: o tênis do futuro talvez pareça mais inteligente, mais rápido e mais preciso. Mas ainda vai depender daquele velho e insubstituível drama humano que nenhum dashboard consegue replicar.
E ainda bem. Porque se um dia a planilha começar a sacar aberto no breakpoint, aí pode fechar a quadra e entregar Wimbledon para o Excel.
FAQ
Como a tecnologia está sendo usada na preparação no tênis?
Ela é usada para analisar padrões de saque, devolução, duração dos pontos, posicionamento, qualidade dos golpes, vídeos e métricas físicas, ajudando jogadores e treinadores a montar estratégias antes das partidas.
O que é o ATP Tennis IQ?
É a plataforma de análise de performance da ATP, reformulada com apoio do PIF, que oferece dados avançados para jogadores do circuito.
Qual dado é mais valorizado pelos jogadores?
Um dos dados mais procurados é a localização do saque do adversário, porque o saque influencia fortemente o desenvolvimento dos pontos.
Todos os tenistas gostam de usar muitos dados?
Não. Alguns, como Aryna Sabalenka, confiam bastante nas estatísticas, enquanto outros, como Coco Gauff, preferem que os treinadores filtrem a informação para evitar excesso mental.
A inteligência artificial já é usada no tênis?
Ela ainda não domina o processo, mas já aparece como possibilidade crescente para scouting e análise de adversários.
O vídeo ainda é importante no tênis moderno?
Sim. Mesmo com o avanço dos dados, a análise de vídeo continua sendo uma ferramenta central para revisão tática e aprendizado pós-jogo.

