Antes que alguém venha com a raquete levantada, a viseira torta e o bronzeado em dia me acusar de crime contra a atividade física, eu já aviso: beach tennis não é esporte. É um evento social com bola. É um happy hour que descobriu a areia. É uma desculpa muito bem vestida para postar foto no Instagram dizendo “treininho pago” quando, na verdade, a pessoa passou cinquenta minutos dizendo “boa!” para uma bola que morreu na rede.
Porque esporte, de verdade, tem sofrimento. Tem cara feia. Tem joelho ralado. Tem técnico gritando. Tem atleta questionando as próprias escolhas de vida. O futebol tem carrinho criminoso na terça à noite. O basquete tem gente pulando em cima de você como se fosse auditoria da Receita Federal. O judô tem uma pessoa te arremessando no chão com a tranquilidade de quem joga um tapete fora. A natação tem falta de ar. O tênis tem corrida, explosão, saque, devolução, perna queimando, braço reclamando, coração negociando com Deus.
Beach tennis tem JBL.
A diferença é clara.
No tênis, o sujeito corre de um lado para o outro, respira como se estivesse fugindo de um animal selvagem e ainda precisa colocar a bola dentro de uma quadra que parece aumentar quando ele vai atacar e diminuir quando ele vai defender. No beach tennis, a pessoa dá três passinhos na areia, encosta na bola com a raquete e já olha para os lados procurando aprovação. Não é ponto. É carência com placar.
E tem uma coisa curiosa: ninguém no beach tennis parece triste. Isso já é suspeito. Todo esporte sério produz algum nível de miséria. O jogador de futebol perde um gol e quer se mudar de país. O tenista erra um backhand e olha para a raquete como se ela tivesse traído a família. O corredor termina uma prova parecendo que viu o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo. Já o jogador de beach tennis perde de 6 a 0 e fala: “Valeu demais, galera, energia incrível!”
Energia incrível? Você foi massacrado por dois dentistas de viseira neon.
Mas ninguém se importa. Porque no beach tennis o resultado é só um detalhe burocrático entre o aquecimento e a foto final. A foto, aliás, é a verdadeira final. Todo mundo abraçado, suado só o suficiente para parecer saudável, mas não o bastante para estragar o cabelo. A legenda vem pronta: “Sobre hoje.” E cinco emojis: sol, raquete, foguinho, onda e coração. Nenhum deles representa esporte. Representa lifestyle.
O atleta de beach tennis não entra em quadra. Ele chega em cena. Primeiro vem o óculos espelhado, depois a garrafinha térmica, depois a raquete combinando com a roupa, depois a pessoa. Existe mais produção visual em uma partida de beach tennis do que em muito casamento. O sujeito vai jogar na areia às sete da manhã usando uma camisa que brilha no escuro, um short milimetricamente escolhido e uma confiança que não corresponde ao nível técnico.
E o vocabulário? Toda modalidade tem seus termos. No futebol tem impedimento. No vôlei tem bloqueio. No tênis tem ace, slice, top spin. No beach tennis tem: “boa”, “quase”, “minha”, “foi mal”, “vamos”, “a areia tá fofa hoje” e “marca a gente no story”. É menos uma modalidade esportiva e mais uma cooperativa de incentivo emocional.
A bola cai no chão e todo mundo diz “boa”. A bola vai na rede e alguém diz “boa tentativa”. A pessoa fura a bola, gira no próprio eixo e quase acerta uma criança do lado de fora, e ainda assim escuta: “É isso, confia!” No beach tennis ninguém erra, apenas participa de um processo evolutivo. É a pedagogia da derrota gourmetizada.
E claro, existe a areia, esse personagem principal. A areia é a desculpa universal. Errou a passada? Areia. Não chegou na bola? Areia. Escorregou? Areia. Cansou depois de quatro pontos? Areia pesada. Perdeu para uma dupla que começou ontem? O vento estava estranho e a areia não ajudou. No beach tennis, a areia tem mais responsabilidade que muito adulto.
Agora, o praticante jura que cansa. E eu acredito. Cansa mesmo. Mas convenhamos: também cansa montar barraca de praia, carregar cooler, procurar vaga no shopping, fugir de parente em festa de família. Nem tudo que cansa é esporte. Subir escada com mochila pesada cansa, e ninguém pede medalha por chegar no terceiro andar.
“Mas tem competição!”, eles dizem. Sim, também tem competição de quem come mais cachorro-quente, de quem dança quadrilha melhor e de quem consegue ficar mais tempo sem piscar. Competição não transforma automaticamente uma coisa em esporte. Se fosse assim, discussão em grupo de WhatsApp seria modalidade olímpica, com categoria individual e por equipes.
Beach tennis é, no máximo, um ritual moderno. A pessoa trabalha a semana inteira, acumula estresse, paga boleto, responde e-mail com “conforme alinhado” e, no fim do dia, coloca o pé na areia para fingir que mora em comercial de protetor solar. Ela não quer vencer. Ela quer pertencer. Quer encontrar a turma, tomar uma água de coco, dar risada, reclamar do vento, fazer uma atividade leve e voltar para casa com a sensação de que agora é uma pessoa equilibrada.
E tudo bem. Isso é bonito. Isso é necessário. O problema começa quando chamam de esporte com aquela seriedade de quem está defendendo a honra nacional. Aí não dá. Aí a gente precisa intervir.
Porque beach tennis não é esporte. É networking com raquete. É crossfit sem trauma. É frescobol com mensalidade. É praia sem mar, tênis sem tênis, vôlei sem salto e academia sem espelho — embora os participantes deem um jeito de transformar qualquer vidro de carro em espelho.
No fim, talvez essa seja a genialidade da coisa. O beach tennis conseguiu o impossível: fazer as pessoas acreditarem que estão treinando enquanto socializam, posam, riem e repetem “boa!” até para o erro mais absurdo. É uma invenção brilhante. Só não é esporte.
É um clube de verão permanente.
E, sinceramente, tudo bem praticar. Tudo bem gostar. Tudo bem comprar raquete cara, marcar aula, entrar em grupo, usar viseira, acordar cedo e se sentir o Nadal da areia fofa.
Só não venha me dizer que é esporte.
No máximo, é a modalidade oficial do “vou ali suar um pouquinho, aparecer bastante e chamar isso de treino”.

