Ano passado voltei a jogar tênis. Primeiro, de forma despretensiosa, misturando vontade de bater bola com tentativa frustrada de estreitar relacionamento profissional. Depois de forma tão compulsiva que fundei do DTA (Dependentes do Tênis Anônimos) — e já somos quatro membros (cc Alexandre, João e Samantha).
O meu retorno foi com um jogo que terminou com duplo 6×0 (ou seja, perdi dois sets sem pontuar), o que chamamos no tênis de “bicicleta”. Chama assim porque alguém cismou que “6/0-6/0” parece uma bicicleta. Em um esporte que a contagem de pontos passa por 0, 15, 30, 40 e game, acho perda de tempo discutir se faz sentido ou não.
Quando o jogador perde um set por 6×0, também tem um nome especial: é pneu. E posso afirmar ser um grande sommelier de pneu. E isso não deveria ser algo para se gabar ou falar publicamente, mas quem se importa? Outro dia um grande campeão russo chamado Daniil Medvedev levou uma bicicleta para casa.
Definitivamente não é comum se identificar com um vencedor de Grand Slam. E não poderia deixar essa chance passar. Precisamos reconhecer nossos feitos.
Levei um 6×0 logo no meu segundo jogo oficial de um torneio. Antes tinha experimentado a sensação durante um amistoso contra um rapaz dependente crônico de slices e drop shots. O abençoado parecia professor de cross fit me mandando correr de um lado para o outro, mas tudo bem. Faz parte. No jogo oficial, no entanto, foi um pouco frustrante porque abreviou muito o jogo. Havia reservado 2h e a coisa toda acabou em menos de 60 minutos.
Mas ainda ficaria pior. A parada ficou séria no terceiro jogo do torneio. O adversário não suou. Não correu. Não sentiu pressão. Só me observou tropeçando na minha própria ansiedade. Tudo bem que ele não era exatamente um iniciante ou 6a classe como eu (eles dividem os jogadores em nível de experiência) e deveria disputar na 5a ou 4a classe, mas não muda a realidade: ele nem precisou mostrar o quanto era superior. Foi uma senhora bicicleta.
(Não vou omitir um amistoso lá no Parque das Mangabeiras, quando joguei pela primeira vez em uma quadra de cimento. Perdi de 6×4 e 6×0 contra o meu ex-companheiro de banda Rodrigo. Ele ficou no meu pé para abandonar as raquetes pesadas e ficar com as leves)
Entre um jogo e outro, também tive um amistoso contra um colega de 5a classe. Levei outra bicicleta para casa. Ao contrário do jogo contra o adversário do torneio, ele colocou algumas observações na mesa. Gosto disso, principalmente quando jogo contra gente melhor que eu — perdoe a redundância. Todo fim de jogo tem uma foto e a gente precisa de muita inteligência emocional para registrar uma “humilhação”. Fiz minhas piadas, mas o sorriso amarelo na foto é puro ódio disfarçado de simpatia.
Entendo que autoestima pode servir tanto para o bem quanto para o mal. Por exemplo. Quem é muito narcisista e com um ego nas alturas, pode sentir que perder repetidas vezes é um problema capaz de abalar a autoestima. O caminho natural é se sentir “ruim demais” e abandonar por causa disso. O outro lado da moeda é ter uma autoestima tão baixa que você nem consegue conceber o sentido de humilhação. E você persiste. Um treino após o outro. Um vídeo de YouTube após o outro.
Eu não sei qual seria a sua decisão se fosse com você, mas tá fácil saber a minha. E essa é a graça da filosofia do tênis. Ninguém derrota completamente quem se recusa a desistir, sabe? Não é sobre ser foda ou vencer todo mundo, mas de colocar uma ideia na cabeça e provar para si mesmo que dá para fazer.
A maior lição das bicicletas foi ver na prática como a ansiedade pode nos derrubar. Às vezes insistimos em decisões questionáveis porque abrir mão do “nosso jeito” parece ofensivo. Mas a quadra não perdoa. O tênis é um esporte que o vencedor normalmente é quem erra menos — e ele nem precisa ser necessariamente o melhor jogador.
O primeiro passo para errar menos é ter calma. É entender que tudo que a gente acha que sabe sobre calma estava errado. Que a gente não sabe o que é isso quando recebe uma bola curta e tenta acelerar.
Nesse sentido, fico comparando o tênis com a vida profissional. Me vejo refletindo constantemente se algum colega ou parceiro de trabalho conseguiria jogar tênis. Aposto que a maioria não toparia.
O tênis não é para quem enrola ou tem vocação para dar desculpas. Se você está acomodado, nunca vai entender o sentimento de perder sua zona de segurança enquanto descobre que tem um jeito certo de segurar a raquete ou que a bolinha vai voar para bem longe se bater com força demais. O tênis faria essas pessoas desistirem num piscar de olhos.
Precisa ser um tanto louco para continuar tentando. E me identifico com isso porque cada pneu é uma versão em miniatura da vida. É ver o jogo virar uma encenação dos 40+ correndo atrás da realização profissional e financeira, da busca pelo propósito. O tênis é uma sessão de terapia na base da porrada. E funciona. Bom, pelo menos funcionou para diminuir a barriga e me ajudar a descobrir o paradeiro do meu pinto.
Agora só preciso da primeira vitória.
Não vai mudar nada, mas ao mesmo tempo… muda tudo. É a chance de ver de repente, todo o esforço não reconhecido e o sucesso financeiro que nunca chegou, serem deixados para trás — por alguns segundos que seja. Será que o mais perto do sucesso e da superação não passa de uma ilusão causada pela endorfina? No fim, talvez tudo que a gente precise não é de uma conta farta no banco, mas de pneus e bicicletas.
E a parte mais irônica é que levei todas essas bicicletas para casa, mas nunca aprendi como pedalar…

